Blog de mp-arruda/ Achados e Perdidos- Contos recontados.
  Silente

Fios de luz

Pardais.

Em pares

Pio

Nenhum

pio

O nascer do dia desavessa

Transpassa o corredor do vento.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 18h32
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  Brinquinharia

 Numa concha

 meio planeta

uma cidade em crescimento

feijão cozido

paixões sagradas

pétalas de flor

A concha que tenho

formato das mãos

na beira do riacho

mato minha sede

sou quase beija-flor.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 16h07
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  Que seja poesia

  

 

Quando digo que sou sua é porque invejo os passarinhos

Andorinha, sabiá, beija-flor...

Um ornitólogo quisera ser

Versado em aves

Ser testemunha

Dos pássaros bordados por mulheres

Que saíram da linha do Equador

Sendo humana

Não tenho penas

Mexo na terra

Cultivo  (Flores e espinhos)

Invento pauta

E sangro.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 09h59
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  O calígrafo.

O calígrafo sentado com as pernas dobradas uma sobre a outra se retirou um pouco além do lugar onde estava. Foi ver as estrelas. E ficou ensimesmado com aquele poema surgido no acaso. As letras de mãos dadas, parecendo crianças, dançaram ao seu redor. Ele, que era acostumado a direcionar as palavras, agora, surpreso estava a flutuar nas constelações. Ao longe o barulho da rua, as vozes das pessoas no trânsito do dia, o chamado das mães, o barulho dos carros, a batida de uma janela, conversas de casais, vendedores, ambulantes, ...

A música vinda do Egito ou quem sabe da Grécia, no silencio lhe ofereceu este poema de Cecília “No mistério do Sem-Fim,/ equilibra-se um planeta./ E no planeta, um jardim;/ e, no jardim, um canteiro;/no canteiro, uma violeta,/ e, sobre ela, o dia inteiro./ entre o planeta e o Sem-Fim,/a asa de uma borboleta.”



Escrito por Mara Paulina Arruda às 18h43
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  Folha de rosto

Acordei há pouco e não estou bem certa se sonhei ou se vivi. Me parece que  era no tempo de Cheherazade. Havia um pastor que seguia no céu a passarada e que levava o rebanho do alto da montanha para o cercado da casa. Pôr-do-sol. A casa feita de pedras na Guatemala abrigava uma família de pescadores que tinha uma rede azul-marinho e contavam histórias dos astecas. Flores ao redor da taipa. A dona da casa usava  brincos feitos de estrelas do mar e preparava olhos de peixes para servir no jantar. Um dos moradores da casa, um menino, perseguia  corpos celestes.

Agora estou lembrando...

Li em sânscrito essa história, num tempo longínquo em que calçava tamancos e vestia blusas bordadas com saias rodadas. Há pouco tempo quando  nos encontramos na biblioteca, meu amor.

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 19h41
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  Meu olhar

 

Fotografia feita por mim em Lages,SC, 2011

"Como nossa alma, que é ar,soberanamente nos mantém unidos,

assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém."

Anaxímenes.(585-c 525a.C.)



Escrito por Mara Paulina Arruda às 15h36
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  Evento

A gata

Saltou da janela

Pulou por cima da torneira da pia até o chão

Caído da mesa  um clips preso num cordão

A gata agarrou

 

Puxou o cordão  deslizando-o

Entre o tapete e o assoalho

 

Se o clips prendia-se na franja do tapete

A gata segurava com uma das patas 

E puxava com a outra o cordão

 

Vai à tarde

 

A gata, cansada de brincar, deitou-se no centro da sala

No interlúdio da tarde

Satisfeita

Por ter sorvido uma borboleta que apareceu no tapete

Lambia os bigodes azuis

Presos que estavam no cordão.

 

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 10h17
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  Narrativa

Saimos do cinema. Caminhávamos cabeça baixa, pensando no filme, em suas tramas e nas revelações que, para cada um, era pertinente. As palavras e cenas nos corroíam numa noite clara em que a lua se fazia presente. Um filme de época. O olhar dos personagens seguia-nos nas ruas até chegar a casa. Parecia que ele carregava uma biblioteca nas costas. O corpo arqueado dentro de um terno marrom surrado. Os ossos do rosto cobertos por uma camada fina de pele. E as mãos com os metacarpos saltando entre músculos e nervos o que dava um destaque para a aliança que tinha na mão esquerda. Saímos assim: meio titubeantes na realidade da vida às 22 horas. Nem eu nem ele quería falar sobre o tema tratado dentro do cinema. Ao dobrarmos a quadra juntos repetimos uma frase do filme. Sorrimos. E, então, ele perguntou: qual é o adjetivo que podemos dar para esse filme? Quando eu ia responder ele acrescentou olhando-me nos olhos: adjetivo para a vida real. Eu não soube responder.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 10h38
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  Vida

Atravessavam a rua folhas que voavam, ocasionalmente, por sobre as cabeças dos transeuntes neste horário. Papéis de propaganda passavam em frente de um homem cego que ria o ouvir do rastear do papel na aba do seu boné. Joel grafitava o muro. Um rápido aceno no 6. andar. Era Manoel que respondeu ao assobio de um menino que vendia algodão-doce.

 

Era um mundo só de homens? Não.

 

Havia muitas mulheres ao redor de uma loja e vendiam artesanato num brechó; e tinha Maria que vivia a escrever poemas; Meninas freqüentavam a escola; Julia recém-saída da maternidade carregava um tesouro.

E o mundo, essa palavra masculina, seguia seu próprio percurso.

 

No banco na praça, dia de sol,  um homem  organizava as horas;  pensava como transmitir o cargo de guardião da cidade aos mais jovens. Sua esposa fazia crochê, tranquilamente, já sabendo o que poderia vir depois.

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 16h29
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  Cantoria

 

    Água

                 C

                         a

                              i

                                i 

                               i

No balde

Ritmo

Trans

              s   

                     b

                                 o r d a

bordoadas

                        

                                                                                

 

Terrapauta

Fazem  círculo

 

Os passarinhos

Vem pescar os insetos

Para levar ao ninho.

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 16h33
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  O grilo

 

Saimos de uma reunião. No trajeto paramos para ver as vitrines. Vestidos amarelos, laranja e lilás vestiam manequins. Dizia que aqueles vestidos, com aquela cor jamais usaria. Citei Chanel e perguntei para Verônica que me olhou de imediato franzindo a testa. Você usaria um vestido dessa cor? Ela ajeitou a manta que tinha no pescoço. Eu, um tanto quanto, digamos... “pussuca” critiquei os modelos e as cores, gesticulando ao modo de minha nona. E, fui adentrando numa teoria absurda, imaginária, ficcional sobre a moda como se estivesse próxima de um sangradouro, enfim, uma bobagem! Nadava como um peixe transitando pelas palavras e frases quando vimos surgir um grilo no meio dos vestidos. O grilo pulava pra lá e pra cá entre o abajur que iluminava a vitrine e o vidro. Eu disse: grilo traz sorte!  É verdade conferiu Verônica. Esse grilo trouxe à minha lembrança os vestidos que as mulheres da minha família já usaram. Cada um!  Se prepare que vou descrever:



Escrito por Mara Paulina Arruda às 16h51
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  O tempo e o vento

 Fotografia feita por mim/Chapecó, SC-2011

" Havia uma escada que parava de repente no ar

Havia uma porta que dava para não se sabia o quê

Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés

E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo

Estava brincando com teus cabelos..."

(Mario Quintana)



Escrito por Mara Paulina Arruda às 10h36
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  Manuela

1950. Manuela estava a pensar no fulano que deu para cortar as crinas dos cavalos, andar espezinhando os vizinhos, furtando galinhas, bagunçando os bailes e por ai afora só porque ela resolveu casar com o filho do beltrano. Manuela criada no simples do lugar viu que o fulano não era um bom partido. Agora, o filho do beltrano que foi estudar fora e voltou doutor, esse sim, era um bom partido. Uns pingos de chuva fizeram com ela abrisse a sombrinha e escolhesse por onde passar; poças, valas e gramado. Estava a pensar. Não entendia por que suas amigas a recriminavam. E, outra coisa que não tinha entendido era os dizeres de certa cartinha do fulano. A cartinha floreada de versos e palavras bonitas fez com ela perdesse o sossego. Já era noite. Estrelas, próximas dos morros, ela viu enquanto fazia o trajeto. A lua  chegava para iluminar o caminho dos amantes. Fechou a sombrinha. Tirou do bolso do casaco aquela cartinha...



Escrito por Mara Paulina Arruda às 18h24
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  Transparência

É verdade que me procurastes? Ela perguntou enquanto semeava. O cheiro da terra, as sementes na mão dela e o iniciar do dia. Ele pediu que ela parasse um pouco. Precisavam conversar. Ela ergueu os olhos. Ele sentou-se numa pedra e disse que bom que o amor o tempo não congelou embora o inverno tentasse. Ela sorriu, abaixou os olhos e continuou a semear. Então ele disse que bom seria se o amor fosse como uma daquelas sementes que a terra se encarrega de destinar. Ela ergueu novamente os olhos e disse: assim é.  

Uma revoada de pardais encerrou a conversa.

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 19h55
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  Paciência

 

No ponto de ônibus. Esperavam. Três crianças. Um filhote de gato rondava. Dividiam um sorvete. Um ao lado do outro. Galhos espalhados no asfalto. Chuva desfez o ninho. A sombra de um pássaro  era visto. Empoleirado no fio de luz esperava a chuva passar. A mãe tinha o rosto desfigurado pela vitiligo. O pai poucos dentes. Num saco de ráfia alguns pertences.  

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 21h46
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