Blog de mp-arruda/ Achados e Perdidos- Contos recontados.
  Fios

 

Gaivotas pousam nas pedras para buscar nos musgos apetitosas iguarias.

As sardinhas conversam futilidades nas primeiras horas do dia enquanto os guris tremulam suas pipas no morro da caixa.

Nos telhados  eles se encontram:

As gaivotas com os peixes na boca e os guris puxando os fios.

 

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 10h04
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  Curso

 

Orlando, um fazedor de pontes analisava as vigas recém cobertas com a massa de cimento.

Relembrava que, desde criança, quis ser o que é.  E dando voltas pela construção da ponte concluiu que depois de uma boa tinta a ponte estaria pronta para os turistas fotografá-la.

Nas caminhadas que fazia pelo bairro aonde mora comparava suas pontes com as pontes que Pierre-August Renoir imortalizou. Sorria juntando as mãos num gesto de reverência.

O percurso da vida: As condições econômicas; a solidão; o sofrimento; as alegrias; o amor.

A vida é tudo isso ou tudo somado são as pontes que se tem que passar?

 

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 09h48
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  60 minutos

Ingrid corria. Não vai dar tempo.  A vida transformada num mundo mecânico.Não vai dar tempo. O relógio no pulso. As pessoas passando tão apressadas quanto ela. As lembranças pipocando entre uma rua e outra. As mensagens no whatsApp. Não vai dar tempo. O olhar dele no longe daquelas lembranças. Não vai dar tempo. Dúvidas. Quantas. O vento. Táxi! O reflexo dela nas vitrines corria.Não vai dar tempo. Help!O passado no pretérito do futuro. Não vai dar tempo. Avistou uma camiseta surrada, será... No meio do trânsito maluco, Oh tempo!!



Escrito por Mara Paulina Arruda às 08h28
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  Herdeiros

 

Os pássaros saltam mais alto do que a altura total de um prédio. Principalmente os herdeiros dos dinossauros. Eles saltam. Eles pulam. Cravejam suas unhas na crosta dos seus inimigos. Eles pulam. Eles saltam. Tacam seus dentes nas asas dos outros. Eles pulam. Eles saltam. Morde quem os persegue. Ao anoitecer se recolhem aos ninhos e absorvem as sobras deste mundo inexistente. Adormecem sonhando serem bonzinhos. Ora, ora!

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 18h56
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  Flor da pele

Shemin, Kien, Yuan-K’i Wang viveram entre 1592 a 1715 na China. De linhagem artística desenharam e pintaram flores e cerejeiras. Comunhão com a natureza, o bailar das folhas levadas pelo vento. Nos seus ateliês estendiam a seda sobre a mesa. Riscavam com precisão os ramos das árvores, a delicadeza das flores, o movimento das estações. Posso vê-los aqui no século XXI por intermédio da imaginação. E, passeando nas ruas de New York, nos sinais de um descendente, com sua máquina fotográfica buscando a perspectiva do dia. Não há cerejeiras mas o perfume das flores ele carrega dentro de si.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 08h11
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  Presente

 

Ela estava na praia. O contador chegou trazendo numa sacola um cachorrinho. Cheio de trejeitos disse que era um presente. Ela correu até o mar. Deu um mergulho, dois e três até suspender a respiração. Ficou tão feliz, feliz... Quando voltou a areia sacudiu o pêlo e entrou de bico na sacola.

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 11h35
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  Passagem

Zum! Ele enviou um coração via rede social. Ela e os moradores de rua. Dias frios. Surpresa aquele coração no meio do caos. Passaram outros. Um  abanar de mão. O reflexo no vidro. Uma mulher de cabelos pintados na superfície da tela. Um beija-flor bicou-a na sombra da janela. Zum! Viajante no ciberspaço.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 09h05
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  Nem

Poeta, o  jardineiro gostava de pintar. Peixe esquecido. Nadou nas margens. Cidades vizinhas. Catou gravetos. Um e outro a cada ano ou dois. Muito esforço. Já disse que nadar é preciso. Ele nem era.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 11h02
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  Retrovisor

Ela vendia Avon. A gente dela uns incompreensíveis, para não dizer outra coisa. Darwin. Evolução. Seleção natural. Caída de uma cachoeira. Tantas coisas que nem dava para explicar a si mesma, ali, dentro do taxi, no trajeto da sua casa a casa da cliente. As crianças esperavam que a noite ela chegasse recheada de pães para o café da noite. O motorista do taxi estacionou no endereço indicado. Ao sair do carro preparou-se para explicar. As mulheres; mesmo se a corrente for o seu contrário. Não se perder na estrada.

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 09h43
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  Espaço triangular

 

O prato estava um espetáculo. Espinhas de sardinhas se acumulavam quando a campainha soou. Quem será a esta hora? No rádio You are make Sun... Ao abrir à porta a melodia pôs-se a frente perguntando se ele era inteligente para entender do espaço que ultrapassava:

Mares, rios, canyons, estradas, montanhas, planícies, cidades, vales... simplificado numa semente.  

Sentou-se a mesa comigo.

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 14h59
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  Anéis de Saturno

 

Conheci Saturno. Ele também tinha muitos anéis. As pessoas faziam graça com o nome dele. Ele pouco importava. Estivemos juntos na rodoviária. E, falamos das nossas tolices humanas.  Conversa vai conversa vem chegamos as mandalas de Carl Gustav Jung. Ele sorrindo disse que recortou de um livro comprado no sebo. Dei-lhe um beijo. Agradeci as horas passadas com quem tem tantos anéis para dividir comigo.

Ele seguiu viagem.

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 09h36
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  Gato Angorá

 

Então aqui morou um gato?

Foi a pergunta que ela fez ao corretor.O corretor ficou sem jeito, não sabia se confirmava ou desconfirmava...Confirmou dizendo que era um gato Angorá tratado a pão-de-ló... Sim. Me parece que tinha muitos pêlos, disse a compradora do imóvel direcionando o olhar para o chão que estava coberto por um plano macio. Com cuidado passou pelo canto da sala. Abriu a janela. O vento enveredou abruptamente. Os pêlos brancos e pretos do gato voaram compondo no ar a imagem de um espírito real.

 

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 09h00
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  Sete

Sete coelhinhos dependurados pelas orelhas secavam ao sol. A pelúcia reluzia. O papagaio assobiava na gaiola. Na chegada dele todos silenciaram. Não mediu  palavras. Disse ríspido que o pai tinha ido embora. A mãe olhou por cima dos óculos.  Os olhos dos bichos marejavam e ficou proibido desde aquele dia tratá-los como bichos inanimados.



Escrito por Mara Paulina Arruda às 09h29
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  Folhas

 

Muitos outonos passaram pelos meus olhos.

O filho do pescador ensinava a pescar.

A mulher vendia blusas e frutas.

O músico apresentava uma fatia fina de um ritmo indiano.

O vento sul batia no rosto de todos nós

E, nós, a ver folhas amareladas caírem,

Se espalharem

Pelas calçadas.

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 16h54
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  Tem sol lá fora?

 

-Tem sol lá fora?

Foi à pergunta que a vendedora me fez antes de passar as minhas compras.  Eu disse que sim. Ela sorriu. Abaixou os olhos para o leitor de código de barras e começou a  passar os produtos.

Sorriu novamente quando viu o Cd do U2. Disse que não saberia dizer de onde viera esse gosto musical que tinha.  Fiquei calada. Admirava seus olhos castanhos no jeito mignon.

Enquanto passava as compras falou de uma desconhecida que encontrou cedo em frente ao prédio onde mora. Ela comia restos que estavam no lixeiro. Foi por isso que ela perguntou se lá fora havia sol. Dentro dela era um dia escuro e triste.

 

 



Escrito por Mara Paulina Arruda às 18h22
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